O André apareceu no meio da tarde. Sem avisar. Bateu na porta do apartamento com a cara abatida e uma mochila nas costas.
— Posso entrar? — ele perguntou.
Carlos abriu a porta sem perguntar nada. André entrou, largou a mochila no chão da sala, sentou no sofá e ficou olhando pro nada.
— O que houve? — Carlos perguntou.
— Perdi o emprego.
A frase caiu como um peso na sala. Carlos sentou ao lado.
— Quando?
— Hoje de manhã. Chamaram na sala, falaram que a empresa tá cortando custos. Mandaram eu limpar a mesa.
— Caramba, André…
— É.
Carlos ficou em silêncio. A primeira vontade era dar solução. "Manda currículo." "Vou perguntar no meu trabalho." "Fica tranquilo, você arruma outro." Mas ele parou. Lembrou do que a Luísa disse uma vez: antes de resolver, acolhe.
— Você quer conversar ou quer ficar quieto?
André pensou.
— Os dois. Mas primeiro, quieto.
Carlos levantou, foi na cozinha, pegou duas cervejas. Voltou, entregou uma, sentou. Eles ficaram em silêncio, a TV desligada, o barulho da rua entrando pela janela.
Depois de uns minutos, André começou a falar. Contou como foi a reunião, o que o chefe disse, a sensação de sair pelo corredor com a caixa de papelão. Carlos ouviu sem interromper.
— O que você acha que eu faço? — André perguntou no final.
— Primeiro, respira. Depois, a gente pensa no próximo passo.
— Juntos?
— Juntos. Mas não hoje. Hoje a gente só processa.
André riu, sem graça.
— Você é o único que não tentou resolver na hora.
— Porque não tem o que resolver agora. O que você precisa é de um dia pra absorver.
André ficou até a noite. Pediram pizza. No dia seguinte, Carlos mandou mensagem de manhã. Não com vaga de emprego. Só com um "bom dia, como você tá?"
*Continua em: 382 — Luísa — Como lidar com o julgamento alheio?*