A mensagem chegou de manhã. Era do Rafael, o amigo que tinha perdido o pai. "Você tem um tempo hoje?"
Luísa respondeu na hora: "Tenho. Passo aí depois do almoço."
Ela chegou no apartamento dele com uma sacola de pão de queijo e um suco. Não porque comida resolvesse, mas porque levar alguma coisa tornava a visita menos pesada.
Rafael abriu a porta de moletom, barba por fazer, olhos cansados.
— Obrigado por vir — ele disse.
— Claro.
Sentaram na sala. A TV estava ligada sem som. Rafael olhava pras paredes.
— Não sei o que fazer — ele disse. — Acordei hoje e não sabia o que fazer do dia.
— Você não precisa fazer nada.
— Mas parece que eu deveria estar fazendo alguma coisa. Me mexendo. Resolvendo.
Luísa lembrou do que a mãe dela dizia quando o pai faleceu: "Não precisa pular etapas."
— Você não precisa resolver nada agora — ela disse. — Só precisa passar pelo dia.
— E amanhã?
— Amanhã a gente vê.
Ele segurou a sacola de pão de queijo.
— Obrigado por não ter vindo com um sermão.
— Pra que sermão?
— Minha tia veio ontem e passou uma hora falando sobre superação. Eu queria que ela fosse embora.
— Eu vou embora quando você quiser.
— Fica mais um pouco.
Ela ficou. Conversaram sobre coisas leves. Séries. O trânsito. O vizinho do lado que tocava bateria. Nada profundo. Nada de superação.
Na hora de ir embora, Luísa disse:
— Posso te mandar mensagem amanhã? Sem compromisso. Só pra saber como foi o dia.
— Pode.
Ela mandou. No dia seguinte. E no outro. Não era sobre dar respostas. Era sobre lembrar que ele não estava sozinho.
*Continua em: 381 — Carlos — Como lidar com um amigo em crise?*