Como ser um ombro amigo?

Luísa

O telefone tocou às dez da noite. Luísa já estava de pijama, deitada na cama, um livro aberto no colo. Carlos tinha acabado de escovar os dentes.

Ela atendeu. Era a voz da Camila, mas diferente. Mais baixa. Mais lenta.

— Você pode falar? — Camila perguntou.

— Posso. O que foi?

— Tô passando por uma coisa aqui.

Luísa sentou na cama. Carlos olhou, ela fez sinal de "tudo bem" com a mão.

— Fala — Luísa disse.

Camila contou. Uma briga feia com a mãe. Coisas antigas que vieram à tona. Palavras que não deviam ter sido ditas. Luísa ouviu. Não interrompeu. Não deu conselho.

Quando Camila terminou, a linha ficou em silêncio.

— Você ainda tá aí? — Camila perguntou.

— Tô.

— Não vai falar nada?

— Você quer que eu fale alguma coisa?

— Não sei. Acho que só queria que alguém soubesse.

— Eu sei. E tô aqui.

Camila respirou fundo do outro lado.

— Obrigada.

— De nada.

Elas ficaram mais alguns minutos no telefone. Luísa perguntou se ela queria ir lá no dia seguinte. Camila disse que sim. Desligaram.

— Tudo bem? — Carlos perguntou.

— A Camila teve um dia difícil. Só precisei ouvir.

— Só ouvir?

— É o que a gente mais precisa quando tá mal. Alguém que não tenta resolver, não dá lição, não compara. Só escuta.

Carlos deitou ao lado dela.

— Você é boa nisso.

— Aprendi com você. Quando você me contou sobre o projeto, você não pediu solução. Pediu acolhimento.

— É.

— E é isso que a gente faz. A gente se acolhe.

Luísa apagou a luz do criado-mudo. Ficar em silêncio. Mas presente.

*Continua em: 379 — Carlos — Como pedir ajuda emocional?*