A sexta-feira à noite era o momento do casal. Mas naquela sexta, Carlos estava distante. Sentou no sofá, ligou a TV, desligou. Pegou o celular, largou. Levantou pra pegar água, voltou, sentou de novo.
— Você tá diferente hoje — Luísa disse, sentando ao lado.
— Tô cansado.
— Só cansado?
— É.
Ela não insistiu. Ficou em silêncio. O ventilador de teto girava.
Carlos queria falar. Mas a palavra não saía. Como dizer que estava inseguro com o novo projeto? Que sentia que não era bom o suficiente? Que o medo de fracassar estava roendo ele por dentro?
Homem não fala dessas coisas.
A frase ecoou na cabeça. Ele a ouviu do pai, do avô, dos amigos na escola.
— Sabe o novo projeto que o Carlos me passou? — ele começou.
— Sei.
— Tô com medo de não dar conta.
Luísa não virou o rosto. Não fez expressão de surpresa ou piedade. Só escutou.
— É um projeto grande — ela disse. — Medo é normal.
— É que parece que se eu falar que tô com medo, vou parecer fraco.
— Parecer fraco pra quem?
— Pra todo mundo. Pra você.
Luísa colocou a mão no joelho dele.
— Carlos, eu não acho você fraco por sentir medo. Acho você humano.
Ele sentiu um nó na garganta.
— Na minha cabeça, eu tenho que resolver tudo sozinho. Pedir ajuda ou admitir que tô inseguro é… derrota.
— É o contrário. Saber o que você sente e compartilhar é mais difícil do que guardar.
Ele ficou em silêncio. Depois de um tempo, disse:
— Obrigado por não ter feito piada.
— Por que eu faria?
— Não sei. Às vezes a gente espera que os outros vão rir da gente.
— Aqui não.
Carlos respirou fundo. O peso no peito aliviou um pouco. Não resolveu o problema do trabalho. Mas resolveu o problema de carregar ele sozinho.
*Continua em: 378 — Luísa — Como ser um ombro amigo?*