Como apoiar um amigo enlutado?

Luísa

A notícia chegou por mensagem. Três linhas secas: "O pai do Rafael faleceu ontem. Velório amanhã." Rafael era um amigo de faculdade, um dos primeiros designers que Luísa conheceu quando entrou no curso. Não se falavam todo mês, mas a amizade continuava.

Ela leu a mensagem três vezes. Guardou o celular. Pegou de novo.

— O que foi? — Carlos perguntou do sofá.

— O pai do Rafael morreu.

— Nossa. Você vai no velório?

— Vou. Mas não sei o que falar.

— Não precisa falar nada.

— Mas parece que se eu não falar, ele vai achar que não ligo.

Carlos apoiou o queixo na mão.

— Lembra quando meu tio faleceu? As pessoas vinham falar "força", "Deus sabe o que faz", e eu só queria que elas ficassem quietas.

Luísa lembrou. Ela mesma, na época, não soube o que dizer. Ficou em silêncio, segurou a mão dele, perguntou se queria comer alguma coisa.

— Talvez seja isso — ela disse.

— O quê?

— Não falar. Só estar.

No velório, o salão estava cheio. Rafael estava perto do caixão, os olhos vermelhos, o terno apertado. Luísa chegou, tocou no ombro dele.

— Vim dar um abraço — ela disse.

Ele abraçou. Demorou. Quando soltou, Luísa não disse "força" nem "vai passar". Ela só perguntou:

— Você já comeu hoje?

Rafael balançou a cabeça.

— Vou te trazer um café. E um pão. Você não precisa comer agora, mas deixo aqui do lado. Se der fome, tá ali.

Ele não respondeu. Mas os olhos agradeceram.

Mais tarde, no enterro, Luísa ficou nos fundos. Não precisava estar na frente. Não precisava falar. Só precisava estar.

No carro, de volta, Carlos perguntou:

— Você falou alguma coisa?

— Falei que ia trazer café.

— Só isso?

— Só. Mas acho que foi o suficiente.

*Continua em: 377 — Carlos — Como compartilhar suas vulnerabilidades?*