O convite tinha vindo do Carlos. Um jantar de confraternização da transportadora com os principais clientes. Sala de eventos num hotel, mesas redondas com toalhas brancas, talheres que parecia peça de museu.
Carlos vestiu a camisa azul claro, o paletó que quase nunca usava. Olhou no espelho do hall. A gravata estava torta. Ajustou.
Luísa apareceu atrás dele.
— Você tá lindo.
— Tô parecendo um menino no dia da formatura.
— Você tá parecendo um profissional. Relaxa.
— E se eu errar o talher?
— Ninguém vai reparar.
— E se eu falar alguma besteira?
— Fala besteira mesmo. Todo mundo fala.
Ele respirou. Entraram no salão.
O jantar começou. Carlos sentou ao lado de um cliente que trabalhava com logística portuária. O homem falava sobre navios, prazos, alfândega. Carlos ouvia, acenava, tentava acompanhar. Na sobremesa, ele derrubou um pedaço de petit gateau no colo.
Olhou pra Luísa. Ela segurou o riso.
— Foi só um pedaço — ela sussurrou.
Na saída, no carro, Carlos soltou o ar que prendeu a noite inteira.
— Foi horrível?
— Foi normal — Luísa disse. — Você não fez nada de errado.
— Derrubei comida no colo.
— Acontece. O importante é que você conversou, ouviu, não ficou no celular.
— É.
— E no final, o cliente disse que você era agradável.
— Falou?
— Falou. Eu ouvi.
Carlos apoiou a cabeça no banco. Jantar formal não é sobre protocolo. É sobre estar presente. O resto é detalhe.
*Continua em: 376 — Luísa — Como apoiar um amigo enlutado?*