Era a primeira vez que Carlos almoçava sozinho com o sogro — ou melhor, com a Dona Margô. A mãe da Luísa. As duas mulheres tinham ido ao banheiro e deixado os dois na mesa do restaurante, cada um com seu prato quase vazio.
Carlos mexeu no guardanapo. Olhou pro teto. Olhou pro copo de água. O silêncio durava uns quinze segundos, mas parecia uma hora.
— O peixe tá bom — ele disse.
— Tá — Dona Margô respondeu.
Silêncio de novo.
Carlos sentiu o desconforto subir pelo pescoço. Ele queria puxar qualquer assunto. Clima. Política. Trânsito. Mas tudo parecia artificial.
Dona Margô colocou o garfo no prato e olhou pra ele com calma.
— Carlos, você não precisa preencher todo espaço com palavra.
— É que…
— Silêncio não é erro. A gente pode ficar quieto junto.
Ele respirou. Não sabia que precisava ouvir aquilo.
— É que eu fico nervoso — ele confessou. — Parece que se eu não falar, você vai achar que não tô interessado.
— Se você não tivesse interesse, não teria vindo. Já mostra o suficiente.
O garçom passou com a bandeja. O barulho do restaurante preencheu o ambiente naturalmente. Carlos não precisou falar. Ficou em silêncio, mas não foi desconfortável. Foi um silêncio dividido.
Quando Luísa e a mãe dela voltaram do banheiro, Dona Margô estava rindo de alguma coisa.
— Tudo bem aqui? — Luísa perguntou.
— Tudo — Carlos respondeu. — A gente tava só… dividindo o silêncio.
Dona Margô sorriu.
No caminho de volta, Luísa apertou a mão dele.
— Você sobreviveu?
— Mais do que isso. Aprendi que silêncio constrangedor é a gente que constrange. O silêncio, sozinho, não pesa nada.
*Continua em: 374 — Luísa — Como manter uma conversa interessante?*