A reunião de condomínio estava uma tortura. Luísa estava sentada na cadeira de plástico branca, no salão do prédio, ao lado de Carlos. O síndico falava sobre a reforma do portão elétrico. A vizinha do terceiro andar discordava. O assunto se arrastava.
Em determinado momento, Luísa olhou pro lado e deu de cara com a Dona Marta, a vizinha aposentada do andar de baixo. As duas trocaram um sorriso educado. Depois, o silêncio.
Luísa sentiu o peso. Aquele silêncio que parece gritar que ninguém tem nada a dizer. Ela mexeu na aliança. Olhou pro teto. Pro chão.
— A senhora ainda cuida das suculentas na sacada? — ela perguntou.
Dona Marta iluminou o rosto.
— Cuido! Sabe que ganhei mais duas? A minha sobrinha trouxe de São Paulo.
— Que legal. Sempre quis ter suculenta, mas tenho medo de matar.
— É mais fácil do que parece. Só não pode molhar demais.
A conversa fluiu. O silêncio tinha quebrado sozinho.
Depois da reunião, no elevador, Carlos comentou:
— Você salvou aquele momento. Tava todo mundo sem graça.
— É que não dá pra ficar em silêncio pra sempre.
— Mas você não parece se sentir pressionada pra puxar assunto.
— Puxo. A diferença é que eu não tento achar o tema perfeito. Só falo sobre o que já tá ali.
— Como assim?
— A Dona Marta tava sentada perto de mim. Eu sabia que ela cuida de plantas. Perguntei sobre o que ela gosta de falar. Não precisei de assunto sofisticado.
Carlos sorriu.
— Você faz parecer fácil.
— Não é. Mas é mais fácil do que ficar remoendo o silêncio.
O elevador parou. Eles saíram. A conversa tinha sido pequena, mas o suficiente pra mostrar que retomar o fio não exige genialidade. Só reparar no que está perto.
*Continua em: 373 — Carlos — Como lidar com um silêncio constrangedor?*