O almoço de domingo estava no fim. Beto tinha trazido uma garrafa de vinho que ganhou de um cliente e os dois irmãos estavam na área de serviço, cada um com uma taça na mão, enquanto a família se espalhava pela sala.
— Essa camisa é nova? — Carlos perguntou.
— Comprei semana passada — Beto respondeu, olhando pra própria manga.
— Ficou boa. A cor combina com você.
Beto franziu a testa.
— Obrigado? — disse, meio desconfiado.
Carlos percebeu o tom. O irmão achou estranho. Dois homens se elogiando sempre parecia fora do comum.
— Que isso, não pode falar que a roupa do irmão tá boa? — Carlos disse, rindo.
— Pode. Mas não é todo dia que você repara.
— É que eu nunca sei se elogio homem parece… sei lá. Forçado.
Beto encostou na máquina de lavar.
— Depende do que você fala. Se você fala "gostei da camisa", é normal. Se você fala "tá gostoso hoje", aí é estranho.
Os dois riram.
— É sério — Beto continuou. — A gente não precisa tratar elogio entre homem como se fosse tabu. É só ser específico. "Legal o corte de cabelo." "Bacana a apresentação que você fez." "Esse tênis é maneiro." Coisa simples.
— E não parece estranho?
— Só parece estranho se você trata como estranho.
Carlos pensou no amigo de faculdade, o André. O cara sempre tirava notas altas, mas ninguém nunca falava nada. Talvez um " parabéns pela média" fizesse diferença.
— Vou começar a reparar mais — Carlos disse.
— Faz isso. Homem também gosta de ouvir que tá fazendo algo certo.
Beto bateu no ombro do irmão e voltou pra sala. Carlos ficou mais um minuto na área de serviço, tomando o vinho. O elogio mais simples é o que a gente fala sem medo de parecer pouco masculino.
*Continua em: 372 — Luísa — Como retomar uma conversa depois de um silêncio constrangedor?*