Como elogiar sem ser falso?

Carlos

Era aniversário da Clarinha. A irmã mais nova do Carlos tinha feito vinte e dois anos e a família estava reunida na casa da Dona Lúcia. O bolo de chocolate em cima da mesa, refrigerante gelado no isopor, a sala cheia de primos conversando.

Carlos ficou na cozinha, ajudando a mãe a cortar o bolo. Pela porta aberta, ele via Clarinha na sala, sentada no sofá, os primos ao redor. Ela ria de alguma história.

— Sua irmã tá feliz — Dona Lúcia disse.

— É. Ela merece.

— Você já elogiou o look novo dela? Ela passou a tarde escolhendo a roupa.

Carlos olhou. A blusa floral, os brincos grandes. Ele não tinha reparado.

— Vou falar — ele disse.

Passou pela sala, mas na hora de abrir a boca, travou. As palavras pareciam estranhas. "Você tá bonita" soava como coisa de quem nunca reparou antes. "Gostei da roupa" parecia elogio de quem não sabe o que falar.

Ele voltou pra cozinha.

— Não consegui — ele disse pra mãe.

— Por quê?

— Não sei. Parece falso. Como se eu tivesse forçando.

Dona Lúcia passou a faca no bolo, limpou o excesso.

— Não precisa ser grande coisa. É só reparar.

— Reparar?

— Em vez de falar que ela tá bonita, fala o que você viu. "Gostei dos brincos." "Essa cor combina com você." É mais fácil quando é específico.

Carlos respirou. Foi até a sala de novo.

— Clarinha — ele chamou.

Ela olhou.

— Gostei dos brincos. Combinam com a blusa.

Ela sorriu.

— Sério? Comprei na feira semana passada.

— Jura? Parece caro.

— Dois reais.

Os dois riram. Carlos sentiu que não tinha sido forçado. Tinha sido verdade. Não precisava de frase pronta. Só de reparar no que já estava ali.

*Continua em: 368 — Luísa — Como receber um elogio sem constrangimento?*