O problema veio numa quarta-feira qualquer. Carlos chegou do trabalho com a camisa amassada, a gravata frouxa, os olhos cansados. Sentou na mesa da cozinha enquanto Luísa cortava tomates para a salada.
— Dia difícil? — ela perguntou.
— O Carlos pediu pra eu apresentar o relatório na reunião de amanhã.
— Isso é bom. Mostra confiança.
— É. Se eu não fosse péssimo em apresentação.
Luísa parou de cortar. Ela já tinha assistido Carlos apresentar uma vez, num evento da empresa. Ele lia os slides. As mãos tremiam. A voz sumia no meio da frase.
Ela queria dizer a verdade. Mas também não queria destruir a confiança dele.
— Você quer treinar comigo hoje à noite? — ela ofereceu.
— Não sei se adianta.
— Adianta. Mas vou ser honesta: você tem um vício de ler o slide. Se conseguir falar sem olhar pra tela, já melhora muito.
Carlos franziu a testa.
— Você acha que eu leio?
— Sim. Todas as vezes. E isso tira um pouco da segurança que você passa.
Ele não respondeu. Ficou olhando pra mesa. Luísa sentiu o peso da própria sinceridade.
— Desculpa. Fui direta demais?
— Não. É que ninguém nunca tinha me falado.
— Porque talvez ninguém tenha percebido. Ou porque as pessoas têm medo de falar.
Ele respirou fundo.
— Você falou de um jeito que não doeu. Mas me fez pensar.
— É esse o ponto. Falar a verdade não é tacar pedra. É apontar o que precisa ser visto, sem julgamento.
— Como você aprendeu isso?
— Com você. Quando você me falou sobre aquela identidade visual.
Carlos sorriu, leve.
— Então a gente se ensina.
— A gente se ensina.
Depois do jantar, eles abriram o notebook na mesa da sala e ensaiaram a apresentação três vezes. Na terceira, Carlos não olhou pro slide nenhuma vez.
*Continua em: 367 — Carlos — Como elogiar sem ser falso?*