Como ser honesto sem ser cruel?

Carlos

A noite de sexta tinha virado tradição. Os dois no sofá, filme que os dois concordavam depois de vinte minutos de negociação, uma tigela de pipoca no meio. Mas naquela sexta, Carlos não conseguia prestar atenção.

Luísa estava ao lado dele, de pernas cruzadas, o celular apoiado na coxa. Ela tinha passado a tarde toda trabalhando num projeto novo. Mostrou pra ele antes do jantar. Uma identidade visual pra uma marca de cafés especiais.

— O que você achou? — ela perguntou sem tirar os olhos da tela.

O nó apertou no estômago dele. Ele não gostou. A paleta de cores não funcionava. A tipografia parecia datada. Mas falar aquilo em voz alta parecia uma traição.

— É legal — ele disse.

— Só legal?

— É… diferente.

Luísa virou o celular na direção dele.

— Carlos, fala a verdade. Você não gostou.

— Eu gostei.

— Sua cara diz o contrário.

Ele passou a mão na nuca.

— É que… as cores não conversam muito bem. O laranja com o verde… fica meio poluído.

Luísa olhou pra tela. Depois pra ele.

— Por que você não falou isso antes?

— Porque não queria te magoar.

— Me magoar é você esconder. O feedback atrasado é pior do que o feedback sincero.

— É que eu não sei como falar sem parecer que tô criticando.

Luísa apoiou o celular no colo.

— Quando você fala "é legal" e não é, eu sei. E fico na dúvida se posso confiar na sua opinião da próxima vez.

Carlos engoliu seco.

— Então o que eu devia ter falado?

— A mesma coisa que falou agora. Só que antes. E sem rodeio.

— Mesmo se for negativo?

— Negativo é diferente de grosso. Você falou que as cores não conversam. Não falou que o trabalho é ruim.

Ele respirou fundo. A cena do escritório veio à cabeça — quando o Carlos falou que o relatório dele tinha falhas. O chefe não disse "seu trabalho é ruim". Disse "os números da página três não batem". Não doeu. Esclareceu.

— Tá — Carlos disse. — Então da próxima eu falo na hora.

— Pode falar. Prefiro a verdade na hora do que o "é legal" guardado.

A pipoca esfriou. Mas a conversa esquentou o suficiente pra noite não ter sido perdida.

*Continua em: 366 — Luísa — Como falar a verdade sem magoar?*