O estúdio estava uma bagunça. Amostras de papel espalhadas pela mesa, o monitor com três abas abertas, uma caneca de café frio encostada no teclado. Luísa olhava pra tela sem enxergar.
— Você tá travada — Camila disse da mesa ao lado.
— Não tô travada. Tô pensando.
— Tá travada. Já é a terceira vez que você mexe no mesmo arquivo sem salvar.
Luísa suspirou. Ela sabia que a sócia tinha razão. Mas aquilo só aumentava a irritação.
— O briefing do cliente tá confuso — Luísa disse. — E o prazo é amanhã.
— Você quer ajuda?
— Não.
Camila esperou. Luísa sabia que ela esperava. Tinham trabalhado juntas tempo suficiente pra conhecer o ritmo.
— Desculpa — Luísa disse. — É que às vezes parece que você tá dizendo que eu não sei fazer meu trabalho.
— Não é isso.
— Eu sei. Mas é o que parece.
Camila girou a cadeira.
— Quando eu falo alguma coisa, é porque já passei por isso também. Não porque acho que você é incapaz.
Luísa ficou em silêncio. O vento batia na janela aberta.
— Então fala — ela disse. — Mas fala de um jeito que não pareça crítica.
— Você quer que eu dê uma sugestão ou quer que eu pergunte o que você acha?
— Pergunta.
Camila inclinou a cabeça.
— O que você acha de inverter a hierarquia das informações? Colocar o benefício antes da explicação?
Luísa olhou pro layout. Leu de novo. Inverteu na cabeça. Funcionava.
— Isso é bom — ela disse.
— É só uma ideia.
— Mas é boa.
Luísa salvou o arquivo.
— Obrigada — ela disse, sem tirar os olhos da tela.
— De nada.
Luísa mexeu o mouse. A irritação tinha passado. Não era o conselho que doía. Era o jeito de receber.
*Continua em: 365 — Carlos — Como ser honesto sem ser cruel?*