Como dar conselhos sem ser invasivo?

Carlos

A sala estava silenciosa. O ventilador de teto girava devagar, fazendo a luz do abajur piscar em ciclos. Pedro estava no sofá, o celular na mão, a expressão fechada.

Carlos sentou na poltrona ao lado. Não falou nada. Só ficou ali, olhando pro nada.

— Pai — Pedro disse sem tirar os olhos da tela.

— Fala.

— Um amigo meu… ele tava precisando de ajuda. E eu não soube o que falar.

Carlos esperou. O ventilador continuou girando.

— Ele tava mal?

— Tava. Mas eu não quis perguntar muito porque não queria ser invasivo.

— E você acha que foi?

Pedro encolheu os ombros.

— Não sei. Ele falou um pouco, depois parou. Mudou de assunto.

Carlos lembrou de uma conversa que teve com o Beto, meses atrás. O irmão mais velho passava por uma fase difícil no casamento. Carlos queria ajudar, mas ficou com medo de parecer intrometido. Passou uma semana matutando, até que num domingo, os dois estavam no quintal da Dona Lúcia, cada um com uma cerveja na mão.

— Você perguntou como ele tá? — Carlos disse.

— Perguntei.

— E ele falou?

Pedro pensou.

— Falou. Mas parou no meio.

— Talvez ele só precisasse saber que você tava ali. Não que você fosse resolver.

Pedro levantou os olhos do celular.

— Como assim?

— Conselho não é receita. É companhia. Você não precisa dar a resposta. Só precisa mostrar que não vai embora.

Pedro ficou em silêncio. Depois de um tempo, ele disse:

— Então eu posso mandar mensagem amanhã. Perguntar como ele tá de novo.

— Pode.

— Sem forçar?

— Sem forçar. Só mostrar que você lembrou.

Pedro guardou o celular no bolso e levantou.

— Vou fazer isso amanhã.

Ele foi pro quarto. Carlos ficou na sala, ouvindo o ventilador. Às vezes o melhor conselho é não dar conselho nenhum. Só presença.

*Continua em: 364 — Luísa — Como receber conselhos sem se ofender?*