Como apoiar sem dar conselhos?

Luísa

Carlos chegou em casa calado. Largou a mochila na entrada, sentou no sofá, e ficou olhando pro nada. Os olhos dele estavam parados no vaso de planta da estante.

Luísa viu da cozinha. Ela ia falar \"você precisa dormir mais\" ou \"tenta não pensar nisso\" ou \"você devia fazer tal coisa\".

Ela parou.

Colocou o pano de prato no balcão e foi sentar ao lado dele no sofá. Toby pulou e deitou no pé dos dois.

— Dia pesado? — ela perguntou.

Ele balançou a cabeça.

— Quer falar?

— Não agora.

— Tudo bem.

Ela ficou. O silêncio se estendeu por alguns minutos. A luz do fim de tarde entrava pela janela, um retângulo dourado no chão da sala.

— O Pedro perguntou se pode morar com a gente — Carlos disse.

A voz veio baixa. Frágil.

Luísa sentiu o instinto de dar uma resposta. De dizer o que fazer, de como resolver, de listar prós e contras.

Ela não falou nada.

— É o que ele quer — Carlos continuou. — Mas eu não sei se é uma boa ideia.

— Você precisa decidir?

— Não hoje. Mas precisei pensar em voz alta.

Luísa passou a mão no ombro dele. A palma quente contra a camisa azul.

— Pensa. Eu tô aqui.

Ele virou o rosto e olhou pra ela. Não disse obrigado. Mas o olhar disse. Ela ficou em silêncio, a mão no ombro dele, o Toby dormindo. A noite caiu devagar e o abajur se acendeu sozinho.

*Continua em: livreto-363.md — Dar conselhos sem ser invasivo*