Como pedir ajuda sem ser um peso?

Carlos

O sofá do apartamento estava coberto de papéis. Imposto de renda, extratos bancários, comprovantes. Carlos estava no meio, os óculos de leitura na ponta do nariz, o lápis mordido.

Luísa chegou da aula de pilates, a bolsa de ginástica no ombro, o rosto ainda corado do exercício.

— Que bagunça é essa?

— Imposto de renda.

— Você não paga contador?

— Pago. Mas eu precisava organizar antes de levar.

Luísa largou a bolsa e sentou na poltrona do lado. Ficou olhando. Carlos olhava os papéis, olhava pra ela, olhava pros papéis de novo.

— O que você precisa? — ela perguntou.

— Ajuda.

A palavra saiu rápido. Como se ele tivesse medo de perder a coragem.

— Com o quê?

— Ver se eu não esqueci nada. São muitas abas.

Luísa levantou, foi até a cozinha, pegou uma xícara de café, e voltou. Sentou no sofá ao lado dele.

— Mostra o que você já fez.

— Você não tá cansada?

— Tô. Mas não de você.

Ele mostrou a planilha. Ela olhou os números, comparou com os extratos, apontou uma linha que ele tinha pulado. Levaram quarenta minutos.

— Pronto — ela disse, fechando a caneta. — Agora leva pro contador.

Carlos guardou os papéis. O sofá ficou vazio de novo.

— Lu.

— Hm?

— Obrigado.

— De nada.

Ela levou a xícara pra cozinha. Carlos ficou sentado no sofá, sentindo o alívio. Não era tão pesado pedir ajuda. Era pesado só antes de pedir.

*Continua em: livreto-362.md — Luísa — Como apoiar sem dar conselhos*