A reunião de briefing estava na terceira hora. O cliente — um homem de meia-idade com relógio grosso no pulso — ignorava a Luísa e falava diretamente com o assistente dela.
— Você entendeu o que eu quero? — ele perguntou, apontando o dedo para o rapaz.
— Sim — o assistente disse, visivelmente desconfortável.
— Mas quem vai executar? Você ou ela?
Luísa colocou a caneta em cima da mesa. O som do plástico contra a madeira foi pequeno, mas o cliente parou de falar.
— Eu — ela respondeu. — Sou eu a designer responsável. O João é meu assistente.
— Tudo bem, mas é que...
— Vamos focar no briefing — ela interrompeu, com um sorriso educado. — O senhor falou que quer uma identidade visual com cores vibrantes. Pode me mostrar referências?
O cliente piscou. Ela não tinha sido grossa. Não tinha alterado a voz. Mas tinha retomado o controle da conversa.
— É... claro.
Ele virou o notebook para ela. Ela analisou as imagens, fez perguntas, anotou. No fim da reunião, ele apertou a mão dela — não a do assistente.
— Obrigado, Luísa.
— Obrigada, senhor.
Na saída, o assistente segurou a porta.
— Você é foda — ele disse baixo.
— Não fui grossa. Só não deixei ele me ignorar.
No elevador, ela olhou o próprio reflexo no metal. O sorriso educado ainda estava lá, mas agora era um sorriso dela, não um ensaiado.
*Continua em: livreto-359.md — Carlos — Como pedir desculpa sem se humilhar*