Era madrugada no apartamento. A luz do abajur no criado-mudo iluminava só metade do quarto. Carlos estava sentado na cama, o caderno que a Luísa deu de presente aberto no colo.
A caneta estava na mão dele. A página estava em branco.
Duas semanas atrás, ele tinha trocado mensagens com uma ex-colega de faculdade. Nada demais — um \"oi, tudo bem\", uma conversa sobre trabalho, um \"você sumiu\". Mas ele não contou pra Luísa. E quando a ex-colega mandou uma mensagem mais pessoal — \"sinto falta dos nossos cafés\" — ele respondeu com um emoji de coração antes de perceber.
Apagou na hora. Mas o emoji tinha ido.
Ele não contou.
A culpa era um peso no peito que não passava. Ele acordava no meio da noite, ficava olhando o teto, ouvindo a respiração da Luísa do lado.
— Não dorme? — a voz dela veio no escuro.
Ele virou o rosto. Ela estava de lado, os olhos abertos.
— Não.
— O que foi?
Ele podia mentir. Podia dizer que era o trabalho. Podia deixar pra contar quando tivesse mais coragem.
— Mandei uma mensagem que não devia — ele disse, a voz baixa.
O quarto ficou em silêncio. Ele ouviu o próprio coração.
— Pra quem?
Ele contou. Tudo. O emoji, o apagar, o silêncio depois.
Luísa sentou na cama. Ajustou o cabelo. Ficou olhando para a frente.
— Não foi uma traição — ela disse. — Foi um deslize. Mas você escondeu.
— Eu sei.
— O que me magoa não é o emoji. É você não ter confiado em mim pra contar.
Ele apertou a caneta na mão.
— Me desculpa.
Ela ficou um tempo em silêncio.
— Não faz mais isso.
— Não vou.
— E vou te perdoar. Mas não agora. Agora eu vou dormir.
Ela deitou de costas para ele. Carlos ficou sentado, o caderno no colo, a culpa ainda pesada mas um pouco menos sufocante. Pelo menos agora ela não estava escondida.
*Continua em: livreto-358.md — Luísa — Como se posicionar sem ser grosseiro*