O silêncio no carro era denso. Carlos dirigia, os olhos na estrada, as mãos no volante. Luísa do lado, o braço apoiado na janela, o vento bagunçando o cabelo dela.
A briga tinha sido idiota. Ele tinha razão — o dinheiro do conserto do carro era pra ser dividido, não era justo ele pagar sozinho. Mas o jeito que ele falou... o tom. O \"você nunca pensa nessas coisas\" que saiu antes dele conseguir segurar.
— Não vou pedir desculpa por estar certo — ele disse, baixo.
Luísa não respondeu.
— Mas... — ele apertou o volante — posso pedir desculpa pelo jeito que falei.
Ela virou o rosto.
— O que?
— O dinheiro é pra ser dividido. Isso é fato. Mas eu não precisava ter falado daquele jeito.
Ele estacionou o carro na frente do prédio. Desligou o motor. O silêncio do carro parado era diferente.
— O conserto a gente divide — ele disse. — E eu peço desculpa por ter sido grosso.
Luísa ficou olhando para o para-brisa. Depois suspirou e virou o rosto para ele.
— Às vezes você tem razão e ainda assim consegue ser chato.
— Eu sei.
— Mas... obrigada por reconhecer o tom.
Ela abriu a porta e saiu. Ele ficou um segundo a mais no carro, as mãos ainda no volante. A chave balançava na ignição. O motor tic-tacava enquanto esfriava.
*Continua em: livreto-356.md — Luísa — Como lidar com a culpa pelo término*