O jantar no apartamento estava quase no fim. Os pratos vazios na mesa, o resto de vinho na taça da Luísa. Toby dormia enroscado no canto do sofá.
— E aí — Luísa disse, apoiando o queixo na mão. — Quando você vai falar com seu irmão sobre a herança do seu pai?
Carlos sentiu o estômago apertar. Ele pegou a faca que estava no prato e colocou na borda.
— A gente precisa resolver isso — ela continuou. — O Beto não vai tomar a iniciativa.
— É.
— \"É\" o quê?
Carlos olhou em volta. A janela estava aberta, a cortina se movia com o vento da noite. Toby virou de lado no sofá e soltou um suspiro.
— Você viu que o Toby está mancando? — Carlos perguntou.
— O quê?
— Hoje quando eu cheguei, ele tava mancando da pata de trás. Pode ser unha encravada.
Luísa franziu a testa, mas se virou para olhar o cachorro. A atenção dela migrou.
— Você levou no veterinário?
— Não, mas vou observar amanhã.
Ela se levantou e foi até Toby, se abaixou para examinar a pata. Carlos respirou fundo. Não era que ele não queria resolver a herança. Era que ele precisava de tempo pra organizar o que ia dizer.
Na manhã seguinte, enquanto Luísa escovava os dentes, ele apareceu na porta do banheiro.
— Sobre a herança — ele disse. — Vou ligar pro Beto hoje.
Ela cuspiu a pasta, enxaguou a boca e olhou pra ele pelo espelho.
— Que bom.
— Desculpa por ter mudado de assunto ontem.
— Eu sei que você foge das conversas difíceis — ela respondeu, secando a boca. — Mas você sempre volta.
*Continua em: livreto-352.md — Luísa — Como pedir desculpas por um erro grave*