O sábado estava nublado, aquele céu cinzento que prometia chuva mas não entregava. Luísa estava na mesa da sala com papel de presente aberto, tesoura, fita adesiva.
Carlos passou com uma xícara de café.
— Pra quem é?
— Sua mãe.
— De novo? Você já deu presente pra ela mês passado.
— Foi a horta. Agora é outra coisa.
Luísa cortou o papel com cuidado. Dentro, um livro de receitas de doces caseiros — ela tinha visto Dona Lúcia folheando um igual na banca da feira há duas semanas. A cena voltou nítida: Dona Lúcia parada na frente da banca, os óculos de leitura na ponta do nariz, virando as páginas com o dedo molhado.
— Ela olhou esse livro na feira — Luísa disse, sem tirar os olhos do papel. — Não comprou porque achou caro. Mas ficou com ele na mão uns cinco minutos.
Carlos parou no meio da sala.
— Você viu isso?
— Tava do lado.
Luísa passou a fita adesiva no papel, alisou com a palma da mão, e virou o pacote. O papel ia se repetir no dia seguinte na casa da Dona Lúcia.
— Ela vai gostar — Carlos falou.
— Eu sei.
Ela colocou o pacote em cima da mesa e levou a xícara de café aos lábios. O líquido ainda estava quente. Lá fora, a chuva finalmente começou.
*Continua em: livreto-351.md — Carlos — Como mudar de assunto*