Na sala de reunião, o ar condicionado era forte demais. Carlos sentiu um arrepio nos braços enquanto o colega da equipe de vendas falava.
— Não, mas eu entendo — o homem disse, balançando a caneta. — O pessoal da logística não tem culpa. Não é todo mundo que consegue acompanhar o ritmo.
Um riso baixo percorreu a mesa.
Carlos manteve os olhos na sua xícara de café. A xícara estava vazia. Ele colocou as duas mãos em volta dela e sentiu o frio da porcelana.
— Carlos, você está entendendo? — o gerente de vendas perguntou.
— Tô — ele respondeu, e não disse mais nada.
A reunião terminou quinze minutos depois. Todo mundo se levantou. Carlos ficou sentado, a xícara ainda nas mãos.
O colega passou por ele.
— Foi mal, cara — disse, sem parar. — Foi brincadeira.
— Tudo bem — Carlos respondeu.
Não estava. Ele sentiu o estômago apertado. Pegou o caderno e foi para o corredor. No caminho para a mesa dele, passou por Carlos, que estava saindo da sala dele.
— Carlos — Carlos chamou.
Carlos parou.
— Você concorda com o que ele disse? — Carlos perguntou, a mão no batente da porta.
— Não.
— Então por que não falou?
Carlos olhou para o chão. Para os sapatos. Para as próprias mãos.
— Porque não é briga que se resolve na hora — Carlos respondeu, baixo. — Mas vou falar com ele depois.
Carlos não disse nada. Só fez um aceno curto e voltou para a sala.
Carlos andou até a mesa do colega de vendas. Parou ao lado. O homem olhou pra cima.
— A brincadeira de antes — Carlos disse, com a voz controlada. — Foi engraçada pra você?
O homem piscou.
— Não foi ofensivo? Achei que vocês...
— Não foi. Mas você não precisa diminuir ninguém pra fazer graça.
O homem pigarreou, desviou o olhar e disse que foi mal.
Carlos voltou para a mesa dele, sentou e abriu o sistema. O ar do escritório parecia menos pesado agora.
*Continua em: livreto-346.md — Luísa — Como se impor sem ser agressivo*