Como recusar uma cantada?

Carlos

O balcão da padaria estava cheio pela manhã. Carlos segurava o café da manhã — dois pães de queijo e um suco de laranja — quando a voz chegou por trás.

— Nossa, você é lindo. De onde você tirou esse par de olhos?

Ele virou o rosto. Uma moça de cabelo cacheado curto, blusa floral, sorriso aberto. Apoiada na fila do caixa. Carlos sentiu o calor subir do pescoço até as orelhas.

— Hã... obrigado — ele disse, e virou para pagar.

A moça deu dois passos e ficou ao lado dele.

— É casado?

— Namoro.

— E daí? — ela riu, sem perder o ritmo. — Tô só elogiando.

Carlos colocou o troco no bolso. A mão dele apertou a embalagem de papel dos pães de queijo. Ele olhou para a saída da padaria, para o sol da manhã lá fora, e depois para ela de novo.

— Eu agradeço o elogio — ele disse, a voz mais firme agora. — De verdade. Mas eu não tô disponível.

Ela inclinou a cabeça.

— Só conversar não pode?

— Pode — Carlos respondeu. — Mas eu prefiro não dar espaço.

A moça ergueu as mãos num gesto de desistência.

— Justo. Respeito.

Ela se virou para a fila do caixa e Carlos saiu da padaria. Na calçada, o sol batia no rosto dele. Ele respirou fundo e sentiu o cheiro de pão fresco ainda preso na roupa.

*Continua em: livreto-344.md — Luísa — Como receber um elogio*