A conversa começou sem querer. As duas estavam na varanda, o fim de tarde laranja pintando o céu entre os prédios. Luísa estava com uma taça de vinho na mão, Carlos com uma lata de cerveja.
— A Clarinha falou que vai se mudar — Carlos disse.
— Pra onde?
— Pro interior. Conseguir um trampo remoto e quer sair da cidade.
— Ela sempre falou isso.
— É. Ela sabe o que quer.
Ficaram em silêncio. O barulho dos carros lá embaixo, misturado com o vento.
— E você? — Luísa perguntou.
— Eu?
— Sabe o que quer?
Carlos olhou pro horizonte. O sol estava quase sumindo atrás dos prédios.
— Algumas coisas. Outras não.
— Quais você sabe?
— Que quero ficar com você.
— Isso é presente, não futuro.
— Futuro também. Daqui a cinco anos, quero estar aqui. Com você.
Luísa virou a taça na mão, o vinho se movendo devagar.
— Eu também — ela disse. — Mas quero mais.
— Tipo o quê?
— Tipo a gente crescer junto. Cada um no seu ritmo. Mas juntos.
Carlos virou o corpo pra encará-la.
— Você quer casar?
A pergunta veio direta. Luísa não esperava. Mas também não se assustou.
— Quero — ela disse. — Mas não agora. Quero primeiro a gente estar bem. Financeiramente. Profissionalmente. Depois a gente pensa nisso.
— E como a gente sabe que tá na hora?
— Acho que a gente sabe quando o futuro não assusta mais.
Carlos ficou em silêncio uns segundos.
— Hoje assusta?
— Um pouco. Mas tô disposta a enfrentar.
Ele colocou a mão no ombro dela.
— Então a gente enfrenta junto.
O vento soprou. O céu ficou mais escuro. Eles ficaram ali, sem pressa de resolver tudo na mesma noite.
*Continua em: 343 — Recusar cantada*