Como estabelecer limites no relacionamento?

Carlos

O sábado tinha hora marcada: almoço na casa da Dona Lúcia. Carlos já sabia. Toda primeira semana do mês. Mas na sexta à noite, Luísa chegou com a mochila de ginástica.

— Não vou poder ir amanhã — ela disse, pendurando a mochila na cadeira.

— Por quê?

— Marquei uma corrida com o pessoal do pedal.

— Mas é o almoço da minha mãe.

— Eu sei. Mas eu já fui no último. E no anterior.

Carlos sentiu o desconforto crescer. Queria dizer que ela precisava ir, que a mãe esperava, que era questão de educação. Mas ele parou. Respirou.

— Você combinou antes?

— Combinei hoje cedo. E pensei antes de falar sim.

— E decidiu ir?

— Decidi. Preciso de um tempo pra mim também.

Carlos ficou em silêncio. A geladeira roncou ao fundo. Ele queria insistir, mas alguma coisa o fez parar.

— Tudo bem — ele disse.

— Tudo bem?

— É. Você falou que precisa. Não vou ser o cara que não deixa a namorada ter agenda própria.

Luísa franziu a testa.

— Sério? Você não vai ficar magoado?

— Vou ficar um pouco. Mas não vou fingir que não. Só que eu também tenho que respeitar seu limite.

— Meu limite?

— Seu tempo. Sua individualidade. A gente não precisa fazer tudo junto.

Luísa sentou na cadeira ao lado.

— Você tá falando sério?

— Tô. E acho que a gente nunca conversou sobre isso direito.

— Sobre o quê?

— Sobre o que cada um precisa. Eu gosto de ir na minha mãe. Você não precisa ir toda vez. Só nas importantes.

— Quais são as importantes?

— Natal, aniversário dela, aniversário meu. O resto, a gente decide junto.

Luísa sorriu.

— Isso é um limite?

— É uma tentativa.

— Funciona pra mim.

No dia seguinte, Carlos foi sozinho pro almoço. Dona Lúcia perguntou pela Luísa.

— Ela foi correr — ele disse.

— Ah, que bom. Saúde é importante.

Ele comeu a lasanha que a mãe fez. Foi estranho sem a Luísa, mas não foi ruim. Às vezes, limite é só respeito disfarçado de conversa.

*Continua em: livreto-342.md — Luísa — Como conversar sobre o futuro com o parceiro?*