A briga começou por causa de uma conta. Uma conta que venceu e Luísa não lembrou de pagar. Carlos reclamou. Luísa respondeu mais alta do que devia. Cinco minutos depois, os dois estavam em silêncio em cômodos diferentes.
Ela ficou no quarto, sentada na cama, com o Toby deitado no chão ao lado dela. O cachorro olhava pra porta, depois pra ela, como se perguntasse por que os humanos complicavam tanto as coisas.
Luísa ouviu o barulho da torneira na cozinha. Carlos lavando a louça. O barulho rítmico dos pratos contra a pia.
Ela quis ir lá. Mas o orgulho segurou.
— Por que é tão difícil pedir desculpa? — ela disse baixinho, pro Toby.
O cachorro abanou o rabo.
Ela pensou na última discussão. Não no motivo, mas no que veio depois. O silêncio. A distância. As horas perdidas.
Levantou. Foi até a cozinha.
Carlos estava de costas, secando uma panela.
— Carlinhos — ela chamou.
Ele virou.
— Fala.
— Eu fui grossa. Não devia ter respondido daquele jeito. A conta venceu, foi culpa minha, mas eu não precisava ter gritado.
Ele colocou a panela no escorredor e apoiou as mãos na pia.
— É que eu não gritei por causa da conta — ela continuou. — Foi porque você falou num tom de... como se eu fosse irresponsável.
— Não foi minha intenção.
— Mas pareceu.
— Tá. Desculpa se pareceu.
— Tá desculpado.
Ela encostou no balcão ao lado dele.
— A gente podia ter resolvido isso em cinco minutos — ela disse.
— Podia.
— Por que a gente não resolve?
— Porque às vezes a gente esquece que o outro não é inimigo.
Luísa passou a mão no braço dele.
— Tô com fome. Vamos pedir pizza?
— Vamos.
Enquanto esperavam a pizza, ela ficou ao lado dele no sofá. Não precisava de discurso. Só de ter ido até a cozinha.
*Continua em: livreto-341.md — Carlos — Como estabelecer limites no relacionamento?*