A festa de aniversário estava animada. Música alta, copos na mesa, uma roda de conversa perto da varanda. Luísa estava no meio de uma discussão sobre séries. O problema é que ela já tinha falado sobre isso nos últimos vinte minutos. E a conversa tinha virado um monólogo de uma mulher que ela não conhecia.
— Aí eu falei pra ele: "se você não gosta, não assiste" — a mulher disse, gesticulando com a taça.
Luísa sorriu e balançou a cabeça. Olhou pro lado. A porta da cozinha estava aberta. Dava pra ver a mesa de doces. Ela queria ir lá. Mas não sabia como sair sem parecer que estava fugindo.
A mulher continuou. Mais cinco minutos.
Luísa tentou um recurso: "Vou pegar mais água, já volto."
A mulher assentiu e continuou falando com outra pessoa.
Luísa foi até a cozinha. Encheu um copo de água, bebeu devagar, olhou a movimentação. Uma amiga entrou, cumprimentou.
— Tudo bem? — a amiga perguntou.
— Tudo. Só precisei de uma pausa.
— Conversa chata?
— Longa.
A amiga riu.
— Um dia a gente aprende a falar "foi bom conversar, vou circular" sem se sentir mal.
— Funciona?
— Funciona. Todo mundo entende. Você não precisa de desculpa.
Luísa guardou aquilo. Quinze minutos depois, quando outra conversa começou a se arrastar, ela estendeu a mão.
— Foi muito bom conversar com você. Vou dar uma circulada, ver o pessoal da sala.
A pessoa sorriu, disse "claro, depois a gente continua", e pronto.
Luísa atravessou a sala, cumprimentou outras pessoas, sentiu o corpo mais leve. Não precisou de desculpa elaborada. Só de honestidade educada.
*Continua em: livreto-339.md — Carlos — Como recusar um convite?*