Luísa reparou no copo vazio de café na mesa da Clarinha. Não era o primeiro. Tinha o prato do almoço, que ela comeu até o fim, e o pão, que ela comeu sem manteiga.
— Você tá economizando? — Luísa perguntou.
Clarinha levantou a cabeça do notebook da biblioteca.
— Como assim?
— Você tá comendo sem manteiga no pão.
— Tô tentando emagrecer.
— Desde quando?
Clarinha não respondeu. Baixou os olhos. Luísa conhecia aquele silêncio.
— O que aconteceu? — Luísa perguntou, mais baixo.
— Minha bolsa da faculdade atrasou. O pagamento do estágio também. Tô com o aluguel atrasado.
— Por que não falou?
— Vergonha.
Luísa apoiou o queixo na mão. As prateleiras da biblioteca subiam até o teto, cheias de livros gastos. Ela pensou em como dizer o que queria sem fazer a Clarinha se sentir menor.
— Vou fazer uma coisa — Luísa disse. — Vou pagar seu aluguel esse mês. E você me paga de volta quando a bolsa cair.
— Luísa, não precisa...
— Eu sei que não precisa. Mas eu quero. E não é esmola. É um empréstimo. Você assina um papelzinho se quiser. Mas não passa vergonha comigo.
Clarinha ficou em silêncio. Os olhos ficaram úmidos.
— Você não precisa fazer isso.
— Clarinha, quando eu montei o estúdio, foi a sua mãe que me emprestou o dinheiro da primeira impressora. Ela disse a mesma coisa: "me paga quando puder". Não é caridade. A gente só se ajuda.
Clarinha respirou fundo.
— Tá bom.
— Amanhã transfiro. E vamos almoçar num lugar que tenha sobremesa.
— Combinado.
Clarinha fechou o notebook e guardou na mochila. Antes de ir, ela parou.
— Obrigada, Luísa.
— De nada. É pra isso que serve família.
*Continua em: livreto-335.md — Carlos — Como pedir desculpas?*