— O Beto quer que a gente seja padrinho do Miguel — Carlos disse, fechando a porta do apartamento.
Luísa virou do fogão, a colher de pau na mão.
— A gente?
— A gente. Ele e a Ju vão batizar o Miguel na igreja do bairro.
Ela sorriu. Baixou o fogo e apoiou a colher no descanso.
— Eu aceito — ela disse.
— Só isso? Não quer pensar?
— Pensei agora. A resposta é sim.
Carlos sentou na cadeira da cozinha. A luz da tarde entrava pela janela, desenhava um losango no chão. Ele não tinha sido padrinho de ninguém antes. Não sabia direito o que significava.
— Eu não sei o que fazer — ele confessou.
— O quê?
— Ser padrinho. O que muda?
Luísa sentou na frente dele, a mão espalmada na mesa.
— Muda que você não é só tio. Muda que se um dia o Miguel precisar de alguém que não for o pai ou a mãe, ele pode vir até você. E você não pode dizer não.
— Isso é pesado.
— É. Mas também é bom.
No sábado do batizado, a igreja estava cheia de família. Miguel estava de roupa nova, os sapatos apertando um pouco, os cabelos penteados pro lado. Segurou a mão do Carlos na hora da entrada.
— Tio, eu vou ter que falar alguma coisa? — ele perguntou.
— Só responder quando perguntarem — Carlos respondeu baixo.
— O que vão perguntar?
— Se você aceita Jesus.
— Aceito — Miguel disse, sério.
Carlos riu baixinho. Durante a cerimônia, quando o padre perguntou se os padrinhos aceitavam a responsabilidade, Carlos respondeu que sim. A voz saiu firme. Mas ele sentiu o peso. Um peso bom, como uma mochila que você escolhe carregar.
Depois, no almoço, o Miguel sentou no colo do Carlos na mesa do fundo.
— Tio, agora você é meu padrinho?
— Sou.
— Então você vai ter que me dar presente todo ano?
— Isso é o de menos — Carlos respondeu. — O importante é que você sabe onde me encontrar.
Miguel assentiu e voltou a comer o arroz com batata palha.
Na saída, Beto apertou a mão do Carlos.
— Valeu, mano.
— Valeu nada. É meu afilhado também agora.
*Continua em: livreto-334.md — Luísa — Como oferecer ajuda financeira a alguém sem constranger?*