Como apoiar um sobrinho que está passando por problemas?

Luísa

Luísa encontrou o Miguel sentado no degrau da escada do prédio, a mochila no colo, os olhos fixos no portão. Ele não entrou. Ficou ali, como se o portão fosse uma barreira que ele não conseguia atravessar.

— Miguel? — ela chamou, parando com as sacolas de mercado nas mãos.

Ele levantou a cabeça.

— Oi, tia.

— Por que não entrou?

Ele deu de ombros.

Luísa colocou as sacolas no chão e sentou no degrau ao lado dele. O concreto estava frio. Um carro passou na rua devagar.

— Pode falar — ela disse.

— Não quero incomodar.

— Você não incomoda.

Ele ficou em silêncio por um minuto. Depois falou, a voz baixa.

— Minha mãe ligou hoje. Ela não volta no mês que vem. Vai ficar mais tempo.

— E você tá preocupado.

— Não quero ser um peso pra vocês.

Luísa sentiu a frase no peito. Menino de dez anos falando em ser peso.

— Escuta aqui — ela disse. — Você não é peso. Nunca foi. A gente te trouxe porque queria. E se sua mãe demorar mais, a gente fica mais. Não tem prazo pra cuidar de quem a gente gosta.

Miguel não respondeu, mas a respiração mudou. Ficou mais devagar.

— Vamo subir? — ela perguntou. — Hoje tem macarrão com molho de tomate, que você gosta.

Ele levantou, pegou uma das sacolas e subiu na frente dela.

Dentro do apartamento, enquanto a água fervia, Luísa viu o Miguel sentado na mesa da sala, com o caderno aberto, a lição de casa começada sem ninguém pedir.

Ele não disse nada. Mas o caderno estava aberto. E isso já dizia muito.

*Continua em: livreto-333.md — Carlos — Como se tornar padrinho ou madrinha de um sobrinho?*