O primeiro sinal foi a toalha molhada em cima da cama. O segundo foi a luz do banheiro acesa às duas da manhã. A terceira foi a porta do quarto batendo na hora do almoço.
— Ele não sai do quarto — Carlos disse, sentando na mesa da cozinha.
— Quantos dias?
— Três.
— Talvez ele precise de espaço.
— Espaço? Ele tá morando aqui faz um mês. Ainda nem desfez a mala.
O sobrinho, filho da irmã do Carlos que morava no interior, tinha chegado pra fazer cursinho na capital. A ideia era que ele ficasse seis meses no apê do casal enquanto se preparava pro vestibular.
A primeira semana foi tranquila. Na segunda, começaram os silêncios. Na terceira, os pratos acumulados. Na quarta, o sumiço.
Luísa observou o garoto no corredor naquela tarde. Ele passou com o celular na mão, a cara baixa, sem olhar pra ninguém.
— Gabriel — ela chamou.
Ele parou.
— Fala, tia.
— Vem aqui um minuto.
Ele foi até a cozinha, encostou na pia. Luísa terminou de lavar a alface e enxugou as mãos no pano.
— Como tão os estudos?
— Bem.
— Só bem?
Ele deu de ombros.
— Olha — ela disse — a gente não precisa de muita coisa. Só de você avisar quando vai chegar tarde. E de não deixar a toalha molhada em cima do colchão.
Gabriel levantou a cabeça.
— É isso?
— É. O resto a gente ajusta.
— Achei que você ia falar de não estar ajudando nas contas ou...
— Não. A gente combinou que você não ia pagar nada enquanto tivesse no cursinho. Mas combinar como a gente vive junto é diferente.
Gabriel respirou fundo. Pela primeira vez, pareceu aliviado.
— A toalha eu coloco no varal — ele disse.
— Agradeço.
— E vou avisar quando chegar atrasado.
— Perfeito.
Naquela noite, ele desceu pra sala com o caderno e sentou no sofá ao lado do Carlos. Não disse nada. Mas a toalha estava pendurada no varal.
*Continua em: livreto-331.md — Carlos — Como ajudar a criar um sobrinho em caso de necessidade?*