Carlos encontrou o Lucas no corredor do shopping. Fazia dois anos que não via o sobrinho. Ele estava diferente. Mais alto, ombros largos, barba por fazer. Não era mais o menino que brincava com o Pedro nos natais.
— Tio Carlos? — Lucas parou primeiro, o fone pendurado no pescoço.
— Lucas. Você cresceu.
— Pois é.
Eles se cumprimentaram com um abraço meio sem jeito, o tipo de abraço que acontece quando você não vê a pessoa há tempo e não sabe se ainda pode apertar.
— Que bom te ver, rapaz.
— Também.
Ficaram um instante em silêncio. O fluxo de pessoas passando ao lado.
— Vai fazer o quê aqui? — Carlos perguntou.
— Comprar um presente pro meu pai. Aniversário dele sábado.
— Já sabe o que vai dar?
— Ainda não. Tô perdido.
Carlos riu. Apontou pra loja de ferramentas no fim do corredor.
— Vem comigo. Conheço umas coisas.
Caminharam lado a lado. Carlos percebeu que o Lucas falava mais agora. Da faculdade, do estágio, da namorada. Ele ouvia mais do que falava. Quando chegou na loja, o Lucas já tinha contado que tava pensando em trancar o curso.
— Por quê? — Carlos perguntou, parando em frente a um expositor de parafusadeiras.
— Não sei se é o que eu quero.
— Você tem tempo.
— Meu pai acha que não.
Carlos pegou uma caixa de ferramentas, virou nas mãos, colocou de volta.
— Seu pai quer o melhor pra você. Mas não é ele quem vai estudar. Nem trabalhar. É você.
Lucas ficou em silêncio, os olhos fixos numa prateleira.
— Você acha que eu devia continuar?
— Acho que você devia descobrir. Mas não desistir antes de tentar de verdade.
O Lucas não respondeu. Mas quando saíram da loja, com o presente do Beto numa sacola, ele apertou o ombro do Carlos.
— Valeu, tio.
Carlos entrou no carro e pensou. Não precisava de muito. Só estar ali. Ouvir. Não dar palpite sem ser chamado.
*Continua em: livreto-330.md — Luísa — Como lidar com sobrinho que mora com você?*