A mensagem chegou numa terça-feira, no meio do expediente. Era da Clarinha.
"Tô desesperada. O Miguel não passa em ciências. E a prova é semana que vem."
Luísa leu a mensagem duas vezes. Miguel era filho do Beto, sobrinho do Carlos. Mas Clarinha tinha mandado a mensagem pra ela. Fazia sentido. Clarinha sabia que ela tinha paciência com criança.
— É o Miguel de novo? — Camila perguntou da mesa ao lado.
— É.
— Você vai ajudar?
— Vou.
No sábado, Miguel chegou com a mochila no ombro e a cara de quem preferia estar em qualquer outro lugar. Luísa abriu a porta e viu o menino de dez anos, cabelo desgrenhado, o caderno amassado debaixo do braço.
— Fala, Miguel.
— Oi, tia.
— Vem. Vou fazer um lanche primeiro.
Ela não começou com a matéria. Fez sanduíche, cortou maçã, serviu suco. Sentaram na mesa da cozinha, o Toby deitado aos pés do menino.
— Que matéria você não tá entendendo?
— Ciências. É as parte da planta.
— Só isso?
— E fotossíntese.
Ela abriu o caderno dele. A letra era pequena, apertada. As anotações estavam todas misturadas. Não era que ele não entendia. Era que ele não conseguia ler o que ele mesmo escrevia.
— Você copia tudo da lousa?
— A professora passa muito rápido.
— Então a gente vai resolver isso de outro jeito.
Luísa pegou o tablet dela e abriu um vídeo curto sobre fotossíntese. Desenhou num papel pardo o sol, a planta, a água. Depois pediu pro Miguel desenhar do lado dele.
— Ensinar é diferente de explicar — ela disse. — A gente precisa achar o jeito que funciona pra você.
Na quarta tentativa, Miguel conseguiu explicar sozinho o ciclo da fotossíntese sem olhar no papel.
— Consegui, tia — ele disse, o sorriso aparecendo.
— Sabia que conseguia.
Na segunda-feira, Clarinha mandou uma foto da prova. Nota oito e meio. O desenho do sol e da planta no canto da folha.
*Continua em: livreto-329.md — Carlos — Como se relacionar com sobrinhos na vida adulta?*