Carlos chegou em casa mais cedo na sexta. A luz da sala estava apagada, mas o quarto do Pedro tinha uma fresta de luz debaixo da porta. Ele passou rente ao corredor, sem fazer barulho.
— Pai?
A voz veio baixa. Carlos parou.
— Tô aqui.
Ele abriu a porta devagar. Pedro estava sentado na cama, o notebook aberto na frente dele, a cara iluminada pela tela.
— Não era pra tá jogando essa hora.
— Eu sei. Mas não tô jogando. Tô vendo um negócio.
Carlos sentou na beirada da cama. O colchão rangeu.
— Mostra aí.
Pedro virou o notebook. Era um vídeo de guitarra. Um cara explicando os primeiros acordes.
— Queria aprender — Pedro disse, sem olhar pra ele.
Carlos olhou para o filho. Depois para o braço da guitarra encostada no canto do quarto, empoeirada.
— Aquela ali ainda funciona?
— Não sei. Ganhei do Beto no ano passado. Mas nunca tive coragem de falar que queria aprender.
Carlos respirou fundo.
— Que acorde você quer aprender primeiro?
Pedro levantou a cabeça. Ele não esperava que o pai sentasse ali.
— Ainda não sei — ele respondeu.
— Então vai aprendendo. Quando eu era novo, queria tocar violão. Meu pai não tinha tempo de ensinar.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— Posso tentar com você?
— Pai, você não sabe tocar.
— Mas posso tentar junto.
Pedro riu baixinho. Foi a primeira vez que ele riu de uma coisa que Carlos falou sem ser por educação.
No dia seguinte, Carlos chegou com um afinador de guitarra comprado na loja de música do centro. Entregou pro Pedro sem fazer cerimônia.
— Testa isso.
Pedro passou a tarde inteira no quarto com a guitarra. De vez em quando, uma nota desafinada. Depois, um acorde. Depois, dois acordes seguidos.
No domingo, na hora do almoço, Pedro trouxe a guitarra pra sala. Tocou três notas seguidas sem errar.
— Escuta, pai.
Carlos escutou. Não era música ainda. Mas era confiança.
E ele sabia que confiança não se conquista com presentes. Confiança se conquista sentando na beirada da cama e dizendo: "mostra aí."
*Continua em: livreto-326.md — Luísa — Como lidar com enteado rebelde?*