A quarta-feira começou com o despertador tocando duas vezes. Luísa levantou primeiro, passou a mão no cabelo e foi até a cozinha. O Pedro ficava com eles na quarta e no fim de semana alternado. Era o dia de buscá-lo na escola.
Ela encheu a xícara de café e sentou no banco da ilha. Da mesa da sala, Carlos olhava o notebook, a sobrancelha franzida.
— Vou chegar um pouco mais tarde hoje — ele disse.
— Tudo bem. Busco o Pedro.
— Tem certeza?
— Claro.
Luísa já tinha buscado o Pedro outras vezes. Mas cada vez era diferente. Não porque Pedro fosse difícil. Ele era um menino educado, de perguntas curtas e respostas na medida certa. O difícil era o silêncio no carro.
Às quatro e meia, ela estacionou em frente ao portão da escola. Os portões de ferro ainda estavam fechados. Ela esperou, o sol da tarde entrando pelo vidro. Quando a campainha tocou e as crianças começaram a sair, ela viu Pedro lá no fundo, a mochila pendurada num ombro só, conversando com um amigo.
Ele entrou no carro, colocou o cinto, apoiou a mochila no colo.
— Oi — ele disse.
— Oi. Como foi o dia?
— Normal.
Luísa ligou o carro. A rua seguia com casas e árvores. Ela tinha aprendido que perguntar demais não funcionava. Que o silêncio não era rejeição. Que enteado não é filho, mas também não é estranho.
— Comprei aquele biscoito que você gosta — ela disse. — O de chocolate com recheio branco.
Pedro levantou a cabeça.
— O triplo?
— Esse mesmo.
Ele sorriu. Foi pequeno, rápido, mas estava lá.
No apartamento, Pedro abriu a mochila na mesa da sala e tirou um caderno de matemática. Luísa passou perto, viu a equação rabiscada.
— Precisa de ajuda? — ela perguntou.
— Não, eu consigo.
— Tá. Se quiser, tô aqui.
Ela foi para o quarto. Deixou a porta entreaberta. Mais tarde, quando ela voltou para pegar uma água, Pedro estava sentado no chão da sala com o Toby no colo, o caderno aberto no tapete.
— Luísa?
— Fala.
— Como resolve fração com denominador diferente?
Ela sentou no chão ao lado dele. Explicou devagar, desenhando no caderno. Ele entendeu na segunda tentativa.
Antes de dormir, Carlos perguntou como tinha sido.
— Foi bom — ela disse. — A gente só esteve junto.
— Só isso?
— Só isso. Não precisa de mais.
*Continua em: livreto-325.md — Carlos — Como conquistar a confiança do enteado?*