O elevador desceu dois andares antes de parar de novo. Carlos segurou a marmita numa mão e o celular na outra. A tela mostrava a mensagem do grupo da família.
— Pai vai apresentar a namorada no domingo — o irmão mais velho, Beto, disse no áudio.
Carlos ouviu duas vezes. Não era a primeira vez que o pai dela aparecia com alguém novo desde a separação. Mas era a primeira vez que ele pedia pra apresentar no almoço.
O elevador abriu. Carlos atravessou o hall e passou pela portaria, o sol da tarde batendo no rosto. Ele parou na calçada, ao lado do muro baixo com trepadeira, e respondeu digitando e apagando três vezes.
— Vai ser estranho? — ele perguntou pra Luísa naquela noite, os dois na sala.
Ela estava no sofá, o Toby deitado aos pés dela, os dedos da Luísa fazendo carinho na cabeça do cachorro.
— Estranho por quê? — ela perguntou.
— Sei lá. Ela não é minha mãe.
— Ela não precisa ser — Luísa disse. — Só precisa ser alguém que seu pai gosta.
Carlos apoiou o cotovelo no joelho e ficou olhando a xícara de café na mesa de centro. No domingo, ele chegou na casa da Dona Lúcia com a Luísa e o Pedro. O pai dele já estava lá, na cozinha, ajudando a mãe a cortar a cebola. Ao lado dele, uma mulher de cabelo castanho preso num coque, segurando uma travessa de vidro com salada de maionese.
— Gente, essa é a Marlene — o pai disse.
Carlos cumprimentou com um aperto de mão. Ela sorriu. Tinha cheiro de álcool de cozinha nas mãos, de quem ajudou a preparar o almoço.
Na mesa, ela ficou do lado do pai. Falou pouco. Perguntou pro Pedro o que ele tava estudando na escola. Perguntou pra Luísa onde ela comprou a blusa. Perguntou pra Dona Lúcia se podia ajudar a lavar a louça.
Dona Lúcia disse que não precisava.
— Mas eu vou ficar sem graça sentada — Marlene respondeu.
Ela lavou a louça. Enxugou. Guardou. Não tratou ninguém como se fosse dona da casa. Também não se fez de coitada. Carlos observou do batente da cozinha, uma xícara de café na mão.
Mais tarde, no carro, a caminho de casa, Luísa disse:
— Ela parece legal.
— Parece — Carlos respondeu.
— Qual é o pulo do gato?
Carlos pensou antes de responder. A rua passava com os postes acesos um por um.
— O pulo do gato é não esperar nada dela — ele disse. — Ela não é minha mãe. Não vai ser. Mas se meu pai gosta dela, o mínimo que eu posso fazer é tratar bem.
Luísa não respondeu. Só colocou a mão no ombro dele.
No semáforo, Carlos olhou pelo retrovisor e viu o Pedro no banco de trás, o fone de ouvido num ouvido só, mexendo no celular. O filho dele também tinha uma madrasta. A Luísa. E ela nunca tentou substituir ninguém. Só estava ali.
*Continua em: livreto-324.md — Luísa — Como se relacionar com enteado?*