O clima na mesa do almoço de Natal estava tenso. Dona Lúcia tinha preparado o peru, a farofa, o arroz com passas. Mas desde que o Beto sentou, as indiretas começaram.
— É, pelo menos esse ano a família tá toda junta — o Beto disse, olhando pro lado da Clarinha.
— E o que isso significa? — a Clarinha respondeu, o garfo no ar.
— Nada. Só constatei.
— Você não constatou nada. Você tá insinuando que eu não venho nos almoços.
— Você não vem.
— Porque trabalho aos domingos!
Luísa olhou pro Carlos, que olhou pro prato. O Seu Antônio continuou comendo em silêncio. Dona Lúcia fingiu que não ouviu.
— Gente — Luísa disse, baixinho.
Todo mundo olhou pra ela.
— É Natal. Dá pra deixar as picuinhas de lado?
— Ela que começou — o Beto disse.
— Eu não comecei nada — a Clarinha rebateu.
— Pronto — Luísa falou, mais firme. — Vocês dois tão brigando por nada. E a Dona Lúcia passou a manhã inteira na cozinha fazendo essa comida. Dá pra respeitar?
O Beto e a Clarinha se entreolharam. A Clarinha baixou o garfo.
— Tá bom.
— Tá bom — o Beto repetiu.
O silêncio voltou. Dona Lúcia serviu o peru. Luísa sentiu o coração batendo mais rápido. Ela não gostava de se meter. Mas alguém precisava fazer alguma coisa.
No fim da refeição, o Beto foi até a Clarinha.
— Desculpa.
— Também desculpa.
Eles se abraçaram rápido, um abraço meio sem jeito. Luísa viu da mesa e sorriu. Carlos apertou a mão dela por baixo da toalha.
— Você resolveu — ele sussurrou.
— Alguém tinha que resolver.
— Aposto que sua mãe nunca precisou fazer isso.
— Minha mãe é filha única. Ela não sabe o que é briga de irmão.
— Sortuda.
Luísa olhou a mesa. O peru estava sendo servido de novo. O Toby dormia debaixo da cadeira. O Natal tinha sobrevivido.
*Continua em: 323 — Relacionar com madrasta ou padrasto*