Como encerrar uma conversa em um evento?

Carlos

Carlos estava preso.

O primo do tio João — um senhor de bigode grosso e fala mansa — estava contando a história da reforma da casa dele havia vinte minutos. Carlos ouvia, acenava, sorria, mas já tinha esgotado todas as perguntas educadas sobre drywall e azulejo.

— ...aí o pedreiro disse que não cabia mais um fio no conduíte. Imagina!

— Nossa — Carlos respondeu. Pela quarta vez.

Ele olhou pro lado. Luísa estava na mesa de doces, conversando com a Clarinha. O senhor continuou falando.

— E o drywall? Aí eu falei pro pedreiro...

Carlos precisava de uma saída. Não queria ser grosso. Mas também não queria passar a festa inteira ouvindo sobre massa corrida.

Ele lembrou de um conselho que a Luísa tinha dado uma vez: *"Não precisa mentir. É só falar a verdade com educação."*

— Seu Valdir, foi ótimo conversar com o senhor. Mas vou dar uma circulada, cumprimentar outros parentes.

— Já? Mas eu ainda não contei da parte do rejunte.

— Depois o senhor me conta. Prometo.

Ele deu um tapinha no ombro do senhor e se afastou antes que ele continuasse. Foi direto pra mesa de doces.

— Sobreviveu? — Luísa perguntou.

— Por pouco. Ele ia começar a falar de rejunte.

— Rejunte?

— Exato.

— Como você escapou?

— Falei a verdade. Que ia cumprimentar outras pessoas.

— E funcionou?

— Funcionou. Ele não ficou ofendido.

— Viu? Não precisa de desculpa. Só de sinceridade.

Carlos pegou um brigadeiro e mordeu. O chocolate derreteu na boca. Liberdade tinha gosto de doce.

*Continua em: 318 — Luísa — Se despedir em festa*