— Meu pai odeia aniversário.
Carlos estava na cozinha, enchendo a garrafa de água. A Luísa o olhou por cima do ombro.
— Todo mundo odeia ou ele odeia?
— Ele odeia. Jura.
— Como assim odeia?
— Ele fala que aniversário é lembrança de que tá mais perto do fim. Palavras dele.
Luísa pousou a faca. — É deprimente.
— É ele.
O Seu Antônio ia fazer sessenta e três anos. Carlos sabia que se fizesse uma festa, o pai ia passar o dia inteiro na garagem, mexendo em alguma ferramenta, fugindo dos parabéns.
— Então não faz festa.
— Não faz?
— Não. Vai na casa dele, leva um presente, fica uma hora. Pronto.
— Só isso?
— Só. Ele não quer bagunça. Quer te ver.
Carlos pensou. Seu Antônio era assim. Homem de palavra curta, de afeto em ação, não em discurso.
No sábado, ele foi na casa do pai com uma caixa de ferramentas nova e um pão de queijo comprado no caminho.
— Pai.
— Oi, filho.
— Trouxe isso.
Seu Antônio pegou a caixa, abriu, olhou as ferramentas. Passou o dedo no cabo de uma chave inglesa.
— É boa.
— O vendedor disse que é a melhor.
— É sim.
— Feliz aniversário.
Seu Antônio grunhiu algo que podia ser um "obrigado". Guardou a caixa no armário da garagem e voltou.
— Fica pra almoçar?
— Fico.
— A Lúcia fez frango.
— Gosto.
Almoçaram em silêncio. Não teve bolo, não teve parabéns, não teve constrangimento. No fim, Seu Antônio deu um tapinha no ombro do Carlos.
— Valeu, filho.
— De nada, pai.
Carlos foi embora sentindo o gosto do frango na boca. Não precisava de festa. Precisava só de presença.
*Continua em: 312 — Luísa — Desinvitar parente de festa em casa*