Luísa estava no estúdio quando a mensagem da mãe chegou.
*"Filha, vó Neusa faz 80 anos mês que vem. A família quer fazer algo."*
Ela largou o mouse e leu de novo. Oitenta anos. A avó dela, Dona Neusa, morava em outra cidade. Luísa não a via há quase um ano.
— Vó Neusa — ela murmurou.
— A que mora em Itajaí? — a Camila perguntou, sem tirar os olhos do monitor.
— Essa mesma. Oitenta anos.
— Nossa.
Luísa pegou o celular e ligou pra mãe.
— Mãe, o que tão planejando pro aniversário da vó?
— A tia Sônia quer fazer um almoço no salão da igreja. Mas a vó Neusa detesta salão de igreja.
— Ela detesta?
— Fala que cheira a vela e cera. Dá alergia nela.
Luísa riu. A avó sempre foi sincera.
— Então faz em casa. Na casa dela.
— Ela não quer sujeira.
— A gente limpa depois.
Teve uma pausa. — Cê acha?
— Mãe, vó Neusa gosta de estar no canto dela. Fogão dela. Vasinho de planta dela. A gente leva a comida, faz tudo, e ela só senta e recebe.
— É, faz sentido.
No dia do aniversário, Luísa acordou cedo, pegou o ônibus e foi pra Itajaí. A casa da avó tinha cheiro de pó de café e planta molhada. Ela arrumou a mesa da sala com uma toalha nova, encheu um vaso com flor amarela do quintal.
Dona Neusa sentou na ponta do sofá, de vestido estampado, cabelo branco preso num coque.
— Vó, feliz aniversário.
— Obrigada, netinha.
— A senhora gostou?
— Gostei. Só não gostei que fizeram bagunça na minha cozinha.
— A gente lava tudo.
— Tá bom.
A família chegou aos poucos, cada um com uma travessa. Teve arroz, frango assado, maionese, farofa. Bolo de milho — o favorito da Dona Neusa. Ela comeu dois pedaços e disse que estava satisfeita.
No fim da tarde, Luísa lavou a louça enquanto a avó cochilava na poltrona. A cozinha cheirava a sabão e café. Ela enxugou o último prato e pensou que tinha sido o aniversário perfeito.
*Continua em: 311 — Carlos — Celebrar aniversário de parente que não gosta de festa*