Carlos parou na frente do mercado e olhou a lista que a Dona Lúcia mandou. *Bexigas, salgadinhos, refrigerante, bolo, vela*. A Clarinha ia fazer vinte e um anos. A mãe queria uma festa completa.
— Parece casamento — ele murmurou.
— O quê? — Luísa apareceu do lado.
— Minha mãe quer fazer uma festona pra Clarinha. Mas a Clarinha odeia essas coisas.
— Ela te falou isso?
— Ela me mandou áudio. Falou que queria pizza com os amigos, só.
— Então fala com sua mãe.
Carlos passou a mão na nuca. Dona Lúcia já tinha encomendado dois pernis.
Em casa, ele encontrou a Clarinha no sofá, mexendo no celular.
— Clarinha, tu prefere uma festa ou um jantar?
— Jantar. Com pizza.
— Tá. Vou falar com a mãe.
— Você vai falar? — Ela ergueu uma sobrancelha.
— Vou.
No dia seguinte, Carlos foi na casa da Dona Lúcia. Ela estava na cozinha, cortando legumes.
— Mãe, a Clarinha não quer festa.
— O quê?
— Ela quer pizza com os amigos. A gente faz um jantar de família em outro dia. Ela vai gostar mais.
Dona Lúcia parou de cortar. A faca ficou no ar.
— Já encomendei os pernis.
— Congela. Faz no Natal.
Ela suspirou. Limpou a mão no avental.
— Tá bom. Mas vai ter bolo.
— Pode ter bolo.
No sábado, a Clarinha comeu pizza com os amigos no salão do prédio. Carlos passou pra deixar o refrigerante e viu a irmã rindo, à vontade, sem constrangimento.
No domingo, a família almoçou junto. Dona Lúcia fez lasanha. Teve bolo de chocolate, mas sem parabéns cantado. A Clarinha abraçou o Carlos na saída.
— Valeu, mano. Você segurou a mãe.
— Alguém tinha que segurar.
Ela riu e foi embora. Carlos ficou na porta, sentindo o cheiro de lasanha na roupa.
*Continua em: 308 — Luísa — Organizar festa surpresa para familiar*