Como dividir as festas de fim de ano entre as duas famílias?

Carlos

O calendário do celular estava aberto na mesa da cozinha. Carlos olhava para os dias 24 e 25 de dezembro como se fossem um problema de física quântica.

— A gente pode fazer tipo rodízio — Luísa disse, passando por ele com uma xícara de café. — Natal aqui, Ano Novo lá.

— Não é tão simples.

— Por quê?

Carlos passou a mão na nuca e apontou para a tela.

— Minha mãe já mandou mensagem perguntando que horas a gente chega no dia 24. Ontem.

— E a minha mãe mandou hoje cedo, perguntando do almoço do dia 25.

Ele suspirou. O Toby veio deitar no pé dele, o rabo batendo no armário.

— Se a gente for na sua mãe no dia 24 e na minha no dia 25, todo mundo vê a gente. Mas ninguém fica satisfeito.

— E se a gente for no 24 dos dois?

— Impossível. Uma é no Centro, a outra na Zona Sul.

Luísa sentou na cadeira da frente e apoiou o queixo nas mãos.

— E se a gente fizer um esquema: véspera com uma, ceia com a outra. E alterna todo ano.

Carlos parou de olhar para o celular e encarou ela.

— Alterna?

— Esse ano a gente passa a véspera com sua família e a ceia com a minha. Ano que vem, inverte.

— E o almoço do dia 25?

— Ano que vem também inverte. Esse ano, almoço na sua casa.

Ele pensou. A conta fechava. Meio a meio. Sem ninguém comer peru sozinho na cozinha.

— Sua mãe vai achar ruim?

— Minha mãe vai achar que foi ideia dela.

Carlos riu e puxou o caderno. Rabiscou um calendário improvisado.

— Então vamos montar o plano.

Na semana seguinte, Dona Lúcia apareceu com um tupperware de rabanada. Carlos esperou ela sentar no sofá, serviu um café e soltou a bomba com cuidado.

— Mãe, a gente pensou num esquema pra esse Natal.

— Que esquema? — ela perguntou, desenrolando a toalha do prato.

— A gente vai fazer revezamento. Esse ano a véspera a gente passa aqui. A ceia na casa da Luísa.

Dona Lúcia parou de desenrolar a toalha.

— E o almoço do dia 25?

— Também na casa da Luísa. Mas ano que vem a gente inverte tudo.

Ela ficou quieta. Passou a mão na toalha. Depois pegou a rabanada e estendeu para ele.

— Tá bom. Desde que você venha na véspera com fome. Vou fazer seu prato favorito.

— Qual?

— Sei lá. Mas vou fazer.

Carlos mordeu a rabanada e sentiu o gosto de canela. O açúcar refinado grudou nos lábios. Não tinha sido tão difícil quanto ele imaginava.

*Continua em: 306 — Luísa — Lidar com parentes que não ajudam na arrumação da festa*