Carlos apoiou o queixo na mão, olhando para o calendário grudado na geladeira. O aniversário do Beto era na semana que vinha. Trinta e cinco anos.
— A gente precisa fazer alguma coisa — ele disse, sem tirar os olhos do calendário.
Luísa apareceu com uma xícara de chá. — Tipo o quê?
— Não sei. Ele é meu irmão. Mas ele não gosta de alarde.
— Beto não gosta de alarde?
— Ele gosta de festa alheia. A dele, ele fica sem graça.
Luísa sentou na cadeira da cozinha. — Então faz um almoço. Coisa simples. Chama a Clarinha, seus pais, a gente. Nada de parabéns constrangedor.
— Você acha?
— Ele vai gostar mais de um almoço tranquilo do que de uma festa com balão e chapéu.
Carlos considerou. Beto sempre foi o irmão mais velho, o que cuidava de todo mundo, o que resolvia os BOs da família. Raramente era o centro das atenções.
— Pode ser. No sábado?
— No sábado.
No sábado, Carlos acordou cedo e foi na Padaria do Seu Jorge buscar pão francês fresco. O cheiro de pão quente encheu o carro. Luísa preparou uma lasanha — a comida favorita do Beto. O molho de tomate borbulhava no forno.
Beto chegou com a esposa e os dois filhos. Quando entrou na sala e viu a mesa posta, ele parou.
— Que isso?
— Almoço de aniversário — Carlos disse.
— Mas eu não queria festa.
— Não é festa. É almoço.
Beto riu, um riso desajeitado. Sentou na ponta da mesa. O filho mais novo subiu no colo dele. A Clarinha chegou com um bolo de chocolate comprado na confeitaria. Dona Lúcia trouxe farofa.
— Tá vendo? — Luísa cochichou. — Almoço. Sem alarde.
Carlos serviu a lasanha e olhou o irmão. Beto conversava, ria, comia. Não teve parabéns cantado. Teve um brinde discreto com cerveja.
— Valeu, mano — Beto disse, no fim, quando os dois ficaram na cozinha lavando a louça.
— Valeu o quê?
— Por não fazer bagunça.
Carlos sorriu e entregou o prato enxaguado pro irmão secar.
*Continua em: 304 — Luísa — Preparar comemoração para aniversário dos avós*