Luísa vinha de uma família católica. Carlos, de uma família evangélica.
Até ali, a diferença nunca tinha sido um problema. Cada um respeitava o espaço do outro. Mas no fim de ano, as coisas apertavam.
— Minha mãe perguntou se a gente vai na missa do galo — Luísa disse.
— Minha mãe perguntou se a gente vai no culto de Natal.
Eles estavam na sala, cada um com o celular na mão.
— E agora?
— A gente não pode estar nos dois lugares ao mesmo tempo.
— Nem quer — Carlos completou.
— A gente precisa decidir.
— Ou a gente cria o nosso próprio negócio.
Luísa levantou a cabeça.
— Tipo o quê?
— A gente faz uma ceia em casa. Só nós dois. E no dia seguinte, a gente divide: você vai na missa com a sua mãe, eu vou no culto com a minha.
— E nenhum dos dois vai estar junto em nenhum?
— A gente vai estar junto na ceia.
Luísa pensou.
— E se elas perguntarem por que a gente não foi junto?
— A gente fala a verdade. Que escolheu passar a noite de Natal juntos, mas que cada um vai com a família no dia seguinte.
— Elas vão entender?
— Talvez não de primeira. Mas é a nossa escolha.
No Natal, eles fizeram a ceia em casa. Arroz, lombo, farofa, aquela salada de maçã que a avó da Luísa fazia. Toby ganhou um pedaço de lombo escondido.
No dia seguinte, Luísa foi com Dona Margô na missa. Carlos foi com Dona Lúcia no culto.
Cada um no seu lugar. Cada um com sua fé. E à noite, se encontraram no sofá de casa.
— Deu certo — Luísa disse.
— Deu.
— Não precisou ninguém ceder.
— É que a gente criou um caminho do meio.
— Que caminho?
— O nosso.
*Continua em: 299 — Preparar casa para receber família no fim de ano*