O caderno de receitas da avó de Luísa estava sobre a mesa da cozinha.
Era um caderno velho, capa de plástico azul desbotada, páginas amareladas. Dentro, a letra cursiva da avó registrava receitas de família: pavê de chocolate, torta de limão, o famoso bolo de fubá que sumia em cinco minutos.
— Faz tempo que a gente não faz nada daí — Carlos disse, olhando o caderno.
— É que dá trabalho.
— Mas sua avó fazia.
— Ela passava o dia na cozinha. Eu tenho mais o quê fazer.
— Você pode fazer num fim de semana. Com calma.
Luísa abriu o caderno. A primeira receita era do bolo de fubá.
No sábado, ela acordou cedo, foi ao mercado, comprou os ingredientes. Fubá, ovos, leite, açúcar, óleo, erva-doce.
— Vai fazer o bolo? — Carlos perguntou.
— Vou.
— Chama sua mãe.
— Chamar?
— Ela deve saber fazer também.
Luísa ligou pra Dona Margô.
— Mãe, vem aqui.
— Pra quê?
— Vou fazer o bolo de fubá da vó. A senhora sabe como é que faz.
— Sei. Mas nunca mais fiz.
— Então vem.
Dona Margô chegou meia hora depois. Lavou as mãos, amarrou o avental.
— Sua avó usava erva-doce. Muita gente hoje não usa.
— Eu comprei.
— Boa menina.
Elas cozinharam juntas. Dona Margô guiava, Luísa seguia. A farinha voou, o açúcar derramou, a cozinha ficou uma zona.
Quando o bolo saiu do forno, dourado, cheiroso, Luísa sentiu algo que não sentia desde criança.
— Vamos fazer isso mais vezes — ela disse.
— Combinado — a mãe respondeu.
— E quando eu tiver filho, vou ensinar ele também.
— Aí a tradição continua.
— Continua.
*Continua em: 297 — Celebrar datas religiosas em família*