A ligação com Dona Margô começou bem. Terminou nem tanto.
— Você não vem aqui há um mês — a mãe disse, a voz arrastada.
— Mãe, a senhora sabe que eu trabalho.
— Eu sei. Mas sua prima mora do lado da mãe e almoça com ela todo domingo.
Luísa segurou a língua. A comparação não era nova.
Quando desligou, ela ficou sentada no sofá, o celular na mão.
— Ela te fez sentir culpada de novo? — Carlos perguntou.
— Disse que a prima almoça com ela todo domingo.
— A prima mora na mesma rua.
— Eu sei. Mas parece que tudo que eu faço não é suficiente.
— O que você quer fazer?
— Não sei. Às vezes quero mandar ela parar de reclamar. Mas aí penso que ela só sente minha falta.
— As duas coisas podem ser verdade.
— Pois é.
Luísa passou a noite pensando.
No dia seguinte, ligou pra mãe de novo.
— Mãe, posso falar uma coisa?
— Pode.
— Eu sei que a senhora sente minha falta. Eu também sinto a da senhora. Mas quando a senhora compara eu com a prima, ou fala que eu não vou aí, me dá uma sensação de que nada que eu faço é suficiente.
— Eu não queria dizer isso.
— Eu sei. Mas é o que eu sinto.
— É que eu sinto falta, filha. É difícil.
— Eu sei. E é difícil pra mim também. Mas a senhora precisa confiar que eu faço o que posso.
Houve um silêncio.
— Tá bom. Vou tentar não reclamar tanto.
— Só me conta quando sentir falta, sem comparação. Que aí a gente resolve junto.
— Combinado.
Luísa desligou sentindo algo que não sentia há tempo: alívio.
*Continua em: 293 — Incluir família nas decisões morando longe*