Como criar uma rotina de videochamadas com a família?

Carlos olhava para a tela do Zoom vazia.

— A Clarinha falou que hoje pode — ele disse pra Luísa.

— E as crianças da sua irmã?

— A Vera falou que vai tentar.

— E sua mãe? Ela conseguiu baixar o app?

— Ela falou que sim, mas eu duvido.

Carlos suspirou. A ideia tinha parecido simples: uma videochamada semanal com a família. Todo domingo, vinte minutos. Cada um da sua casa.

Mas na prática, era um pesadelo.

— A Beto não aparece — Luísa disse, olhando a tela do lado.

— Ele falou que o horário não encaixa.

— A Clarinha falou que o wi-fi caiu.

— E a minha mãe não conseguiu entrar.

— Isso é normal no começo — Luísa disse.

— É uma luta.

— Toda rotina nova é. Mas se vocês insistirem, vira hábito.

— Como a gente insiste se ninguém aparece?

— Começa com quem aparece. Depois os outros vêm.

Carlos seguiu o conselho. No domingo seguinte, chamou só a Clarinha e a mãe. A Clarinha entrou na hora. A Dona Lúcia entrou atrasada, a câmera apontada pro teto.

— Mãe, a câmera — Carlos disse.

— O quê?

— A câmera. Tá apontada pro teto.

— É que eu ponho o celular em cima do armário.

— Põe na mesa.

Ela ajustou. O rosto dela apareceu, grande demais.

— Melhor?

— Melhor.

Eles conversaram vinte minutos. Sobre a semana, sobre a comida, sobre o Pedro. No fim, Dona Lúcia disse:

— Gostei disso. Semana que vem de novo?

— Semana que vem de novo.

Levou três semanas até a Beto entrar. Quatro até a Vera aparecer com as crianças. Mas no segundo mês, todo mundo estava lá. Vinte minutos. Todo domingo.

Não era muito. Mas era o suficiente.

*Continua em: 292 — Lidar com culpa por morar longe da família*