Como lidar com a adoção na família?

Carlos recebeu a notícia num sábado de manhã.

A prima Simone ligou. A voz dela estava diferente, um tom que ele não sabia identificar.

— Carlos, vou contar uma coisa. A gente vai adotar.

Ele segurou o celular, sentou na ponta da cama.

— Nossa, Simoni. Que notícia.

— A gente começou o processo ano passado. Não falamos pra ninguém porque não sabíamos se ia dar certo.

— E deu?

— Deu. A match veio mês passado. Um menino de quatro anos.

Carlos sentiu um nó na garganta.

— Que legal, prima. Que legal.

Quando desligou, Luísa apareceu na porta.

— O que foi?

— A Simone vai adotar.

— Nossa! Que legal!

— É.

— Você não parece feliz.

— To feliz. É que eu não sei o que falar.

— O que você falou?

— Falei que era legal.

— Então já falou certo.

Carlos ficou pensativo.

— Eu não quero perguntar coisas erradas. Tipo "por que a mãe biológica não ficou com ele?".

— É, isso é invasivo.

— Ou tratar o menino como coitadinho.

— Também não.

— Então o que eu falo?

Luísa sentou na cama.

— Fala o que você falaria se fosse um filho biológico. "Que idade? Qual o nome? Conta mais."

— Só isso?

— Adoção é só o começo da história. Depois é só família.

Na semana seguinte, Carlos mandou uma mensagem pra prima:

*"Simone, fiquei muito feliz por vocês. Se precisar de ajuda com alguma coisa — quarto, enxoval, o que for — é só falar. Tô aqui."*

Ela respondeu com um áudio. No áudio, a voz dela estava tremendo.

*"Obrigada, primo. Sabe o que foi mais difícil até agora? É as pessoas perguntarem 'de onde ele veio'. Como se isso importasse."*

Carlos entendeu na hora. A pergunta certa não era sobre o passado. Era sobre o presente. E no presente, a prima tinha um filho.

*Continua em: 288 — Lidar com distância geográfica da família*