Carlos chegou em casa e jogou a mochila no sofá. Toby levantou a cabeça, viu que não ia ter carinho e deitou de novo.
Luísa estava na cozinha, cortando cebola.
— Cara feia — ela disse sem olhar pra trás.
— Liguei pra minha mãe.
— E?
— Contei que o Pedro tá tendo dificuldade na escola. Que a professora chamou. Que a orientadora sugeriu acompanhamento.
— Ela falou o quê?
— "Isso é fase. Passa."
Carlos apoiou as duas mãos no balcão.
— Ela sempre faz isso. Qualquer problema que eu conto, ela diminui. Fala que é exagero meu.
— Você falou que isso te incomoda?
— Falei. Ela riu e disse que eu sempre fui preocupado demais.
Luísa largou a faca e virou.
— Então ela não ouviu.
— Ela acha que ouviu.
— São duas coisas diferentes.
— Pois é.
Carlos sentou no banco. Toby veio colocar a cabeça no joelho dele.
— Eu sei que ela não faz por mal. É o jeito dela de dizer que vai ficar tudo bem.
— Mas não fica — Luísa completou.
— Não fica. Não se a gente não fizer algo.
— Então talvez o problema não seja o que você conta. Talvez seja como você conta.
Carlos ergueu a sobrancelha.
— Você já tentou falar na primeira pessoa? Não "a professora disse", não "o Pedro tá assim". "Mãe, eu estou preocupado. Eu preciso que a senhora me escute."
— Parece simples.
— É simples. Só não é fácil.
Na noite seguinte, Carlos ligou de novo. Dona Lúcia atendeu com a voz animada.
— Filho!
— Mãe, posso falar uma coisa?
— Claro.
— Eu sei que a senhora quer me tranquilizar. Mas quando a senhora fala que é exagero, eu me sinto sozinho. Eu preciso que a senhora me escute, mesmo que não tenha solução.
Do outro lado, silêncio.
— Desculpa, filho. Não sabia que tava fazendo isso.
— Tudo bem. Só precisava que a senhora soubesse.
— Então conta de novo. Do Pedro. Que eu vou ouvir de verdade.
Carlos respirou fundo e contou, sabendo que dessa vez ela estava escutando.
*Continua em: 284 — Escolher destino que agrade toda a família*