Carlos estava voltando do trabalho quando viu a multidão parada no cruzamento. Ele tinha ouvido no rádio que tinha manifestação na região, mas não imaginava que ia pegar o caminho dele.
— Puta merda — ele murmurou, pisando no freio.
O trânsito parou. Ele viu o grupo de gente com cartazes, e atrás, um carro da polícia. Parecia pacífico. Mas ele sabia que em manifestação, as coisas mudavam rápido.
Ele estacionou o carro num posto de gasolina e desceu. A intenção era atravessar a praça e pegar o metrô.
Foi quando ouviu o estouro. Bala de borracha.
A multidão se dispersou em pânico. Carlos correu, mas não sabia pra onde. No meio do corre-corre, ele sentiu o ombro bater num poste. A dor foi elétrica.
Ele caiu. Pessoas passavam correndo ao lado. Ele tentou levantar, mas o ombro não respondia.
— Preciso de ajuda! — ele gritou.
Ninguém parou.
Ele respirou. Olhou em volta. Viu um segurança de um banco, parado na porta, protegido atrás do vidro blindado.
Carlos rastejou até lá.
— Moço! Moço! — ele bateu no vidro.
O segurança olhou.
— Me ajuda. Meu ombro. Não consigo levantar.
O segurança avaliou a situação. Dois segundos de hesitação. Depois abriu a porta.
— Entra. Rápido.
Carlos entrou. O segurança fechou a porta e trancou.
— Senta ali. Vou chamar uma ambulância.
— Obrigado.
— Não agradece ainda. Deixa eu ver esse ombro.
O segurança examinou, tocou de leve. Carlos fez careta.
— Deslocou. Não é quebrado. Mas precisa de médico.
— A ambulância demora?
— Em dia de manifestação, demora. Mas posso chamar um uber pra você, se quiser.
— Chama.
O segurança puxou o celular e pediu o carro. Em cinco minutos, um Honda branco parou na porta.
— Vai no hospital São Lucas. É perto.
Carlos entrou no carro com o ombro pulsando. Olhou pra trás. A manifestação ainda estava lá, mas ele estava seguro.
— O senhor vai bem? — o motorista perguntou.
— Vou. Só desloquei o ombro.
— Segunda vez esse mês que pego alguém de manifestação.
— É tenso.
— Pois é. A gente sai de casa pra trabalhar e pega essas coisas.
Carlos apoiou a cabeça no banco. Tinha conseguido pedir ajuda. Não tinha morrido de vergonha. E agora estava a caminho do hospital.
*Continua em: 278 — Luísa — Emergência em evento religioso*